Entendendo as Contas Externas

As contas externas de um país geralmente não recebem a devida atenção por parte dos investidores, mas são uma importante fonte de informação econômica. Elas estão representadas contabilmente pelo balanço de pagamentos.

Dentro do balanço de pagamentos existem duas contas:

    • transações correntes
    • conta financeira

Transações correntes

contas externasDentro das transações correntes são registrados os fluxos de bens e serviços, ou seja, é aqui que entra a balança comercial, somada com transações de serviços, como seguros internacionais, viagens e aluguéis, entre outros.

Nessa conta também é registrada a movimentação de lucros das empresas multinacionais. Ou seja, a remessa de lucros e dividendos é a outra parte importante das transações correntes.

Normalmente, as transações correntes tendem a apresentar déficit no Brasil. Isso ocorre, pois o déficit em transações correntes é contabilmente igual ao uso de poupança externa pelo país.

Como, por questões históricas e culturais, o Brasil poupa pouco internamente, necessita importar poupança do resto mundo para sustentar sua demanda interna (consumo, gasto do governo e investimentos).

Outra forma de observar o déficit brasileiro é pelo grande número de empresas multinacionais instaladas no país que tendem a remeter parcela de seus lucros para suas respectivas matrizes, já que o saldo da balança comercial e de serviços tende a ser positivo.

Em países pouco desenvolvidos o mais importante são as transações correntes. Como esses países recebem pouco capital externo, eles são forçados a manter um resultado próximo a zero nesta conta, ou então sofrem com fortes depreciações cambiais (no caso de estarem com grandes déficits na conta corrente em momentos de crise).

Conta financeira

Já para os países desenvolvidos, e este vem se tornando o caso do Brasil, há forte atração de capitais.

Isso permite que o país financie déficits nas transações correntes com entrada de fluxos em forma de investimento estrangeiro direto, ou seja, de longo prazo; ou pela entrada de capitais em portfólio e em renda fixa, que tendem a ser mais voláteis e estão representados na conta financeira.

O grande ponto das contas externas é seu reflexo sobre o câmbio. A soma das transações correntes e da conta financeira é igual à variação de reservas do país (desconsiderando variações patrimoniais das reservas).

Caso a conta fique negativa, ou seja, haja um déficit do balanço de pagamentos e não existam reservas, é necessário um ajuste pelo câmbio com depreciação, o que tende a gerar inflação.

Credibilidade do governo

Outro ponto importante das contas externas é a situação fiscal. Se o governo tenta fazer uma expansão fiscal acima do potencial da economia, isso tende a “vazar” para o exterior, via déficit em transações correntes, ou seja, com aumento de importações e maior remessa de lucros e dividendos (já que as empresas tendem a lucrar mais no país do que no exterior, tudo o mais constante).

Além disso, na conta financeira, entra o pagamento de juros e principal da dívida externa do país. Isso era um grande drama do país no passado, já que, em momentos de crise, havia fuga de capitais de curto prazo, o país tinha déficit nas transações correntes e ainda tinha que manter o pagamento do serviço da dívida. Nesse momento, faltava moeda estrangeira, na maior parte das vezes o dólar.

Dessa forma, era necessário um forte ajuste cambial.

Atualmente, o forte influxo de divisas e a posição credora do país reduziram este risco de forte depreciação da moeda e permitem que o país tenha déficit de transações correntes.

Assim, a conta financeira se torna a mais importante a ser observada nos próximos anos.

Diego Wawrzeniak (@diegowrz) é autor do Guia do Imposto de Renda na Bolsa. Trabalhou no mercado financeiro e é economista pela FGV. Além de finanças, também é apaixonado por empreendedorismo, inovação e conversar com outros investidores.