Como Analisar o Cenário Econômico Brasileiro

Você não precisa ser um economista para entender um pouco melhor o cenário econômico brasileiro. Neste artigo vou explicar algumas coisas que irão ajuda-lo a entender o que está acontecendo na economia e quais as perspectivas para o cenário econômico futuro.

Ao contrário do que pode parecer para muita gente, a economia não é um bicho de sete cabeças. Como explicado pelo economista-chefe da Órama Investimentos, Álvaro Bandeira, no eBook sobre os “Cenários Econômicos do Brasil”, existem algumas variáveis fundamentais para entendermos o que está acontecendo e definirmos quais os rumos futuros que a economia brasileira poderá seguir.

Estas variáveis são:

  1. Inflação
  2. Taxa de Juros
  3. Câmbio
  4. Produção Industrial e Nível de Emprego
  5. Contas Externas

Vamos entender cada uma destas variáveis, como elas atuam sobre a economia e, como exemplo prático, vamos utilizar a análise realizada por Álvaro Bandeira:

(O eBook gratuito sobre esta aula está disponível para download aqui.)

5 importantes variáveis no cenário econômico

1. Inflação

Atualmente esta é a variável central na economia brasileira, uma vez que toda a política monetária (nível da taxa de juros) está orientada sobre ela.

Já expliquei em um outro artigo a relação entre inflação e taxa de juros. Desta vez vou me deter na importância de acompanhar os movimentos da inflação para entender os possíveis caminhos da economia.

Como o Banco Central define a taxa de juros quase que exclusivamente com base no nível da inflação, acompanhar a inflação nos permite saber se o juros têm maior probabilidade de aumentar ou diminuir.

Além disso, a inflação é primeiramente um indicador de aquecimento da economia, de modo que uma alta da inflação aponta que a economia está produzindo além do potencial permitido por sua capacidade produtiva (infraestrutura, mão de obra, etc), variáveis que falaremos mais adiante.

Inflação na prática:

Álvaro Bandeira explica no eBook cenários econômicos do Brasil, que o Banco Central teve que aumentar a taxa de juros pela primeira vez em meses, uma vez que a inflação já estava em um nível acima da meta considerada tolerável.

Portanto, é de se esperar que ainda devem ocorrer novos aumentos enquanto as taxas de inflação não começarem a diminuir. E por outro lado, podemos também perceber que a possibilidade de ocorrerem reduções nos juros no curto prazo é muito remota.

inflação no cenário econômico brasileiro

fonte: eBook Cenário Econômico do Brasil, Órama Investimentos

2. Taxa de Juros

Como vimos, a taxa de juros é utilizada para controlar a inflação e entendendo os movimentos da inflação, podemos saber o que esperar das taxas de juros.

Por sua vez, a taxa de juros (SELIC) é importante para entendermos o cenário econômico brasileiro, uma vez que ela determina diversas variáveis que afetam diretamente o lado real da economia, ou seja, a produção.

Entre essas variáveis estão o nível de crédito oferecido, o custo deste crédito e até mesmo o fluxo de dólares que entram e saem do país.

Taxa de Juros na prática:

Atualmente o Brasil vive um ciclo em que as taxas de juros estão nos níveis mais baixos das últimas décadas. Isso deve-se à melhor organização das finanças do governo ao longo dos últimos anos, e mais recentemente ao período de crise que reduziu as taxas de juros em todo o mundo. No entanto, ainda assim temos uma das taxas de juros mais altas do mundo.

Como uma taxa de juros menor estimula a economia, o governo atual adotou como política manter os juros em níveis baixos, para buscar o crescimento. No entanto, como estamos vendo agora, o nível de crescimento atual apesar de ser relativamente baixo, já é maior do que a capacidade produtiva do Brasil consegue naturalmente, resultando em inflação.

Com a taxa de juros aumentando novamente, podemos esperar uma desaceleração da economia para um nível onde as taxas de inflação possam diminuir.

taxa de juros no cenário econômico atual

fonte: eBook Cenário Econômico do Brasil, Órama Investimentos

3. Câmbio

Esta variável econômica é fundamental por determinar o custo das importações e exportações, e consequentemente se no saldo final destas transações o Brasil é credor (exportações > importações) ou devedor (importações > exportações), as chamadas contas externas como veremos adiante.

Em uma economia mundial como a de atualmente, o Brasil compete com outros diversos países no momento de vender sua produção internacionalmente. Como o câmbio determina o preço da moeda internacional (o dólar – US$), ele consequentemente afeta o preço dos produtos brasileiros e nossa competitividade frente à outros países.

Além do dinheiro proveniente de transações, existe também o fluxo proveniente de capital especulativo (investimentos de curto prazo), que pode afetar a cotação do dólar para valores que prejudiquem às exportações brasileiras. Neste caso o governo adota uma política de controlar a cotação do dólar por meio da compra e venda da moeda e de dos chamados swaps cambiais.

Câmbio na prática:

Em períodos de crise, é comum que os governos adotem medidas para desvalorizar sua moeda e assim aumentar a competitividade dos produtos da economia (eles ficam mais baratos em US$).

Foi o que ocorreu recentemente, e até foi criada a expressão “tsunami financeiro” referindo-se a quantidade de recursos especulativos que poderiam entrar no Brasil, proveniente de outros países, o que faria o Real valorizar e diminuiria nossa competitividade.

Na prática isso não ocorreu, devido à atitudes do governo (aumento do IOF) e a mudanças no cenário internacional. No entanto, estamos observando perda de competitividade do Brasil no cenário internacional refletida na menor quantidade de exportações, e no déficit que está ocorrendo no saldo comercial (importações > exportações).

4. Produção Industrial e o Nível de Emprego

A produção industrial e o nível de emprego são fundamentais para entender se a economia apresenta potencial de crescimento. Um aumento da produção aponta que mais valor está sendo gerado, que as pessoas estão consumindo mais e consequentemente também há mais postos de trabalhos para serem preenchidos.

Como  vimos, quando a produção cresce além do suportado pela estrutura econômica, temos a inflação por conta do aumento de demanda nos recursos produtivos, que não estão disponíveis para todos, resultando em aumento de preços.

O que permite ampliar a capacidade natural de produção da economia são os novos investimentos por conta do governo e das empresas, fazendo com que os recursos produtivos sejam ampliados e a economia possa crescer de modo sustentável e sem inflação.

 Produção e Emprego na prática:

A produção brasileira tem passado por maus momentos desde 2007, quando desde de então acumula um crescimento médio de somente 0,5% ao ano até 2012.

Boa parte disso pode ser atribuído justamente ao baixo nível de investimentos, que correspondem por menos de 25% do nosso PIB, enquanto que em outros países em desenvolvimento este valor aumenta para mais de 40%.

Veja abaixo a relação direta entre a redução do investimento, com a redução da produção:

produção no cenário econômico brasileiro

fonte: eBook Cenário Econômico do Brasil, Órama Investimentos

5. Contas Externas

Como já comentei, as contas externas mostram o saldo entre os dólares que entraram e os dólares que saíram do país, sejam por meio de transações, por meio de investimentos especulativos ou não e até remessas de empresas e pessoas ao exterior.

Este fluxo mostra se o Brasil está sendo credor ou devedor perante aos outros países, sendo que a posição de credor mostra que o Brasil está acumulando reservas, enquanto que a posição devedora aponta o Brasil perdendo reservas.

O saldo é afetado por diversos motivos, porém principalmente pelos fatores que afetam a produção brasileira, como competitividade, aumento de custos, políticas protecionistas e até mesmo fatores climáticos.

Contas Externas na prática:

Em março, o país registrou déficit em transações correntes de US$ 6,873 bilhões, economistas apontam que o déficit em conta corrente por si só não preocupa, mas sua evolução é que é alarmante.

Este déficit aponta perda de competitividade da economia brasileira e piora as perspectivas de o Brasil terminar o ano com um superávit de US$ 15 bilhões, conforme o projetado pelo Banco Central.

Veja as projeções do economista Álvaro Bandeira para este ano, até a presente data:

cenário econômico contas externas

fonte: eBook Cenário Econômico do Brasil, Órama Investimentos

Outras variáveis do cenário econômico brasileiro

Embora o bom entendimento das variáveis econômicas que expliquei aqui dê uma boa perspectiva sobre os rumos da economia é importante lembrar que a economia é afetada por muitos outros fatores, que possuem a importância variável de acordo com o momento e situação do país estudado.

Veja alguns exemplos de variáveis importantes que abrangem outros pontos como o social e político:

Variáveis Sócio Econômicas

pobreza cenário brasileiroTambém são fundamentais para entender as melhorias e transformações que a sociedade passa:

– O aumento de renda da população amplia o mercado consumidor domestico beneficiando a toda a sociedade.

– A melhoria nos níveis de educação e alfabetização mostram a criação de uma mão de obra mais qualificada para garantir que a competitividade e produção cresçam de modo sustentável.

– A porcentagem de jovens empregados mostra se a mão de obra do futura está sendo devidamente preparada (problema grave que está ocorrendo em países europeus atualmente).

– Capacidade de o governo sustentar a população aposentada no futuro (um problema extremamente preocupante que irá ocorrer no Brasil em um futuro próximo caso nada seja feito).

Variáveis Político Econômicas

politicos cenario economicoEstas variáveis mostram o alinhamento do governo em garantir que a economia seja competitiva e que as melhorias realizadas sejam sustentáveis no longo prazo e garantam uma melhor qualidade de vida à população:

Níveis de corrupção.

Independência do Banco Central em realizar a política monetária de acordo com a condição econômica e não de interesses políticos.

– Capacidade e vontade de o governo respeitar os acordos já estabelecidos previamente, garantindo um ambiente mais seguro para investimentos de longo prazo.

Eficiência do setor público em agir conforme o necessário e desburocratizar processos, facilitando o processo de investimento, criação de empresas, etc.

– Capacidade do setor público em gastar o dinheiro arrecadado de forma eficiente, gerando melhoria de vida à população.

 

Diego Wawrzeniak (@diegowrz) é autor do Guia do Imposto de Renda na Bolsa.
Trabalhou no mercado financeiro e é economista pela FGV. Além de finanças, também é apaixonado por empreendedorismo, inovação e conversar com outros investidores.

  • Simone Alves

    Excelente material de pesquisa. Linguagem simples, de fácil entendimento, tanto para profissionais da área financeira quanto leigos. Parabéns!

  • bruno

    Superou minga expectativa, pra mim deveria ter mais tópicos, estes estão bem esclarecidos.

  • excelente material Parabens!!!

  • Maicon

    Muito Bom, entrei para buscar informações e acabei lendo o texto todo de tão interessante a metodologia aplicada.

    Abraços

  • Djalma Pereira da Silva

    Gostei das fundamentações dos artigos, mais para o ensino apredizagem, necessito de uma Ementa tratando de Cenários Economicos e Mercados, para desenvolver com o pessoal.
    Aguardo
    Muito Grato
    Maceió-Al, 11/06/2015