Oportunidade de alta nas ações brasileiras com a perda do Investment Grade

Comprar no boato e vender no fato é um dos jargões mais antigos e realistas do mercado. Grandes investidores utilizam da expectativa positiva para comprar antes do fato ser consumado. Ou ainda utilizam possíveis informações privilegiadas (esta ilegal e que o público em geral não tem acesso) para também comprar uma determinada ação. Com isso, na divulgação da notícia positiva ao público em geral (pela imprensa), o investidor que comprou anteriormente poderá se aproveitar da nova demanda compradora no ativo para realizar seu lucro com a venda da posição. Por isso que é tão comum as ações caírem com fatos positivos, já que grandes investidores geralmente são mais fortes que a massa de pequenos investidores.

Um exemplo bem marcante dos últimos anos foi a Petrobras PN (PETR4), ao obter elevação de 100% em dois meses até o anúncio do campo de Tupi (pré-sal) em 08/11/2007 e, com a bombástica notícia, ter fôlego para alta do seu preço por apenas um dia, já revertendo para queda em seguida, conforme gráfico abaixo:

Gráfico Diário da PETR4 (ago - nov 2007)
Gráfico Diário da PETR4 (ago – nov 2007) – clique para ampliar

A expectativa da obtenção pelo Brasil do Investment Grade (grau de investimento), enquanto grau especulativo, foi uma das forças motrizes que impulsionaram as ações brasileiras entre 2003 e 2008, juntamente com a valorização das commodities e da manutenção da politica econômica de FHC pelo novo governo Lula. No entanto, o recebimento do título de grau de investimento em 30/04/2008 pela agência Standard & Poors (S&P) foi justamente o topo do nosso principal benchmark – o Ibovespa. Até hoje, os 73.900 pontos do nosso topo histórico em 2008 ainda não foi superado – somos um dos poucos países do mundo a não ter renovado o topo anterior à crise sub-prime.

Gráfico Mensal do Ibovespa (1999 - 2015)
Gráfico Mensal do Ibovespa (1999 – 2015) – clique para ampliar

Outro exemplo marcante foi a divulgação, em 27/01/2013, do excelente resultado do Banco Bradesco, que foi na ocasião o quarto maior lucro da história dos bancos brasileiros. A ação vinha com uma alta direta de 25% nas últimas semanas e, no momento do anúncio, iniciou uma correção de 10% em alguns pregões.

Gráfico Diário de BBDC4 (out 2012 - fev 2013)
Gráfico Diário de BBDC4 (out 2012 – fev 2013) – clique para ampliar

O mesmo raciocínio da antecipação dos principais players do mercado com compras quando há expectativas positivas, pode ser aplicado em expectativas negativas para antecipação das vendas, como o atual momento do Brasil de instabilidade financeira e política com a recente perda do grau de investimento. Ou seja, com a expectativa negativa, tivemos uma atual pressão vendedora que tende a ser revertida após o fato negativo.
Fatos reais ratificam esta tese. Tailândia, Indonésia, Coreia, Colômbia, Hungria e Rússia, por exemplo, sofreram bastante com a expectativa de rebaixamento do rating, com seus principais índices em tendência de queda durante 12 meses até ocorrer tal evento. Na sequência, com o fato consumado, as quedas foram revertidas para uma retomada bem forte do movimento altista nos três meses seguintes.

Quedas e elevações dos principais índices de países que perderam o grau de investimento:

  • Tailândia, Indonésia, Coreia: perderam o Investment Grade pela Moody’s no final de 1997.
    Nos 12 meses antes do down grade as quedas foram respectivamente: Tailândia (-72%), Indonésia (-74%) e Coreia (-66%). Três meses após o down grade as ações subiram na média: Tailândia (+40%) Indonésia (+39%) e Coreia (+50%);
  • Colômbia: em agosto de 1999, a Moody’s cortou o rating da Colômbia que caiu (-42%) nos 12 meses antes da perda. Nos três meses posteriores apresentou alta de (+17%);
  • Hungria: em 2011 teve o down grade pela Moody’s com 35% de queda no MSCI Húngaro nos 12 meses antes da perda e nos três meses após o down grade o MSCI Húngaro subiu (+27%);
  • Rússia: perdeu seu Investment Grade em janeiro de 2015. O MSCI Russo caiu (-42%) nos 12 meses antes da mudança da nota e subiu rapidamente nos três meses seguintes (+32%);
    Fontes: MSCI, UBS, Moody’s, S&P

Tal movimento de reversão após a eventual perda do Investment Grade também tende a ser replicado aqui no Brasil. Ou seja, aguardamos uma perda para voltarmos a ganhar. Visto que, enquanto nos últimos cinco anos um dos principais índices dos Estados Unidos apresentou elevação de +36%, nosso Ibovespa apresentou no mesmo período queda de -36%, conforme os dois gráficos abaixo:

EUA +36% - Gráfico Mensal do Índice Dow Jones DJI (2009 - 2015)
EUA +36% – Gráfico Mensal do Índice Dow Jones DJI (2009 – 2015) – clique para ampliar

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BRASIL -36% - Gráfico Mensal do Ibovespa (2009 - 2015)
BRASIL -36% – Gráfico Mensal do Ibovespa (2009 – 2015) – clique para ampliar

Como exemplo de antecipação das vendas de ações na expectativa de uma notícia negativa, e sua posterior elevação com a notícia negativa divulgada, me recordo da divulgação do balanço da Usiminas – 01/11/2012 – com forte prejuízo líquido consolidado no terceiro trimestre de R$ 124,9 milhões (bem acima do esperado pelos analistas), contra lucro de R$ 154 milhões no período do ano anterior. No entanto, a ação que vinha de queda nas semanas anteriores, reverteu para alta logo após a divulgação, o que sinalizou a antecipação dos players.

Gráfico Diário de USIM5 (set 2012 - dez 2012)
Gráfico Diário de USIM5 (set 2012 – dez 2012) – clique para ampliar

As agências de notas de crédito (Moody’s, S&P e Fitch) classificam os principais países do mundo, assim como as empresas, em dois grupos: os que possuem grau de investimento e aqueles que possuem grau especulativo. Na prática, muitos grandes fundos de investimentos têm em seus regulamentos disposições que os obrigam a investir apenas em ações de empresas sediadas em países que são classificados com o grau de investimento. Com isso, teoricamente, tais países recebem maior fluxo de capital. Atualmente o Brasil é classificado pela S&P com BB+, após perder o rating BBB (Investment Grade) pela S&P em 09/09/2015.

Classificação de crédito países ao redor do mundo pela S&P

Classificação de crédito países ao redor do mundo pela S&P
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Leandro Martins é responsável pela divulgação da carteira recomendada técnica e da carteira semanal Rico e apresenta diariamente ao longo do pregão o programa Ponto a Ponto na Rico.
Saiba mais: https://www.rico.com.vc/ponto-a-ponto

Leandro Martins

Formado em Economia, com MBA em finanças pela USP e pela FIPE, e Mestrado em Economia pela Universidade de Grenoble. Profissional de Investimento certificado pelo CNPI Pleno (Analista Fundamentalista e Técnico de Ações) registrado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Analista Chefe em corretoras de valores e professor na BM&F Bovespa.