Moedas do Brasil: por que o Real ainda é a melhor da história?

Neste artigo você vai entender porque a pesar da inflação atual, o Real continua sendo a melhor de todas as moedas do Brasil até agora.

O IGPM, índice de inflação calculado pela Fundação Getúlio Vargas, nos últimos 12 meses acumula mais de 12% de inflação no Brasil, ou seja o Real brasileiro perdeu quase 1% de seu valor a cada mês.

Com efeitos em diversos setores da economia, a inflação como está, deixaria muitos ministros das finanças de cabelos em pé pelo mundo a fora.

Não é a tôa que o Banco Central do Brasil até já criou um livro para crianças para tentar ensina-las como a inflação pode ser ruim.

Neste artigo você vai ver uma retrospectiva de todas as moedas que foram criadas e usadas no Brasil nos último 80 anos e entender o que deu errado com cada uma delas.

No total, desde 1942, 8 moedas diferentes circularam pelo Brasil:

  • Cruzeiro (1942 – 1967) – 25 anos
  • Cruzeiro novo (1967 – 1970) – 3 anos
  • Cruzeiro (1970 – 1986) – 16 anos
  • Cruzado (1986 – 1989) – 3 anos
  • Cruzado novo (1989 – 1990) – 1 ano
  • Cruzeiro (1990 – 1993) – 3 anos
  • Cruzeiro real (1993 – 1994) – 1 ano
  • Real (1994 – agora) – 22 anos

Tirando o Real, todas as moedas anteriores foram derrotadas pela inflação causada principalmente pela impressão de moeda para financiar os altos gastos públicos. Uma prática que apesar de tudo o governo brasileiro ainda não aprendeu que não funciona.

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Vamos lá:

Cruzeiro (1942 – 1967)

1 Cruzeiro (Cr$1) = 1000 Réis (1$000)

O Cruzeiro foi a moeda que unificou as cédulas no Brasil, já que até então haviam 56 tipos diferentes de cédulas em circulação no país.

Inicialmente entraram em circulação notas de 10, 20, 50, 100, 200, 500 e 1000. Após alguns anos, por falta de recursos do governo, foram criadas as notas de 1 e 2 para substituir moedas.

Foi derrotado pela alta inflação no final da década de 60, mas trouxe grandes aprendizados para o Brasil, entre eles a primeira cédula realmente impressa em solo nacional, em 1961. Até então as cédulas eram impressas nos Estados Unidos ou Europa.

Por conta da inflação, nos últimos anos de sua circulação foram criadas notas de Cr$5.000 e de Cr$10.000. Hoje em dia seria como ter notas de R$ 500 e R$ 1000.

Em 1967, após atingir a inflação de 25%, a moeda foi abandonada por uma nova tentativa.

Cruzeiro Novo (1967 – 1970)

1 Cruzeiro Novo (NCr$1) = 1000 Cruzeiros (Cr$ 1000)

Com a alta inflação sofrida pelo Cruzeiro, veio a tentativa de implementar o Cruzeiro Novo, uma moeda temporária onde que cada 1 NCr$ valeria exatamente Cr$ 1.000 (Cruzeiro antigo).

Sua função foi dar tempo para que as novas cédulas de Cruzeiro fossem impressas, de modo que as cédulas antigas forma carimbadas com novos valores, sem o 3 zeros e voltaram a circular.

Após 3 anos em circulação, deu-se a etapa final da reforma monetária em curso, de modo que a moeda do Brasil voltou a chamar-se somente Cruzeiro.

Cruzeiro (1970 – 1986)

1 Cruzeiro (Cr$1) = 1 Cruzeiro Novo (NCr$1)

Com a mudança de nome, cada Novo Cruzeiro passou a valer 1 Cruzeiro. Uma tentativa de restabelecer a credibilidade da moeda anterior, que conseguiu permanecer em circulação por mais 16 anos.

Na década de 80 a inflação voltou a aumentar a ponto de finalmente derrotar a moeda brasileira.

Cruzado (1986 – 1989)

1 Cruzado (Cz$1) = 1000 Cruzeiros (Cr$ 1000)

Novamente tirando 3 zeros da moeda antiga, o Cruzado (Cz$) entrou em circulação valendo 1.000 Cruzeiros.

As cédulas antigas de Cruzeiro também forma reaproveitadas, sendo carimbadas e tendo as legendas adaptadas.

 

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Com a recessão sofrida pela economia brasileira nos anos 80, também conhecida como “a década perdida”, o Cruzado também foi vítima de elevadas taxas de inflação, que acumularam em 1200% durante a curta existência da moeda.

Nos últimos anos de circulação do Cruzado o governo foi obrigado a lançar notas de 5.000 e 10.000. O que atualmente seria como notas de R$ 5.000 e R$ 10.000.

Cruzado novo (1989 – 1990)

1 Cruzado Novo (NCz$1) = 1000 Cruzados (Cz$ 1000)

Pela terceira vez em menos 40 anos o Brasil cortava mais 3 zeros de sua moeda, dando origem ao Cruzado Novo (NCz$), consequência do Plano Verão, a reforma monetária implementada na época.

Cruzeiro (1990 – 1993)

1 Cruzeiro (Cr$1) = 1 Cruzado Novo (NCz$1)

Com essa mudança a moeda voltava a trocar de nome e chamou-se Cruzeiro novamente.

Apesar da história já haver mostrado diversas vezes que apenas tirar os 3 zeros da moeda, sem alterar a eficiência dos gastos públicos não funcionava, o governo mais uma vez insistiu nesta estratégia.

Após décadas de altas taxas de inflação, a economia brasileira já estava completamente indexada, ou seja, contratos e pagamentos eram automaticamente reajustados pela inflação, tornando o processo inflacionário exponencial e cada vez mais forte.

Em 1989 a média mensal da inflação chegou próximo a 29%.

Esta época é marcada por um dos momentos mais dramáticos em termos de política monetária, o “Confisco” executado no governo Collor. Onde 80% de todos os depósitos e aplicações bancárias que excedessem NCz$50.000 ficaram congelados pelo governo durante 18 meses.

Apenas 1 ano após sua criação, o governo foi obrigado a liberar notas de 10.000, 50.000 e de 500.000. Cédulas de 1.000.000 e 5.000.000 foram planejadas, mas nunca chegaram a entrar em circulação.

moedas do brasil cruzeiro 500000

Cruzeiro real (1993 – 1994)

1 Cruzeiro Real (CR$1) = 1000 Cruzeiros (Cr$ 1000)

Outra tentativa de criar uma moeda que sobrevivesse a inflação, o Cruzeiro Real durou somente 1 ano em circulação e foi quase que uma medida temporária para dar tempo a preparação e implementação do plano Real, que viria a seguir e finalmente seria bem sucedido.

No curto período de um ano em que o Cruzado Real esteve em circulação a inflação acumulou em 60%.

Real (1994 – presente)

1 Real (R$1) = 2750 Cruzeiros Reais (CR$ 2750)

A moeda que veio junto com o plano Real, o grande responsável pelo controle das taxas de inflação no Brasil foi um dos casos de maiores sucesso em política monetária, ainda atualmente estudado em diversas universidades pelo mundo afora.

Atrelado ao dólar no padrão R$ 1 = US$ 1 e a um brusco aumento na txa de juros brasileira, o choque fez com que finalmente o país conseguisse ter uma moeda em que todos podiam confiar.

O gráfico abaixo mostra o efeito instantâneo que o plano Real teve sobre as taxas de inflação:

inflacao moedas brasil

O que vem depois?

A verdade é que a menos que o governo faça um erro econômico grotesco (algo especialmente comum de acontecer no Brasil), o Real é uma moeda que veio para ficar, principalmente por estar atrelado a uma política monetária bem feita e ter um Banco Central relativamente autônomo para decidir as taxas de juros.

Então no melhor dos casos o Brasil não vai ter que mudar de moeda tão cedo, e se o governo ajudar, o Real será tido cada vez mais como uma moeda crível.

Diego Wawrzeniak (@diegowrz) é autor do Guia do Imposto de Renda na Bolsa. Trabalhou no mercado financeiro e é economista pela FGV. Além de finanças, também é apaixonado por empreendedorismo, inovação e conversar com outros investidores.

  • Barbara Tedesco

    Ola Diego, tenho uma duvida. Quais seriam as consequencias praticas que termos hoje em circulacao notas de 500 ou 1000 reais? Levando em conta a inflacao, de alguma forma isso nao seria positivo? Obrigada